O FUTURO DOS PORTOS MARITIMOS

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Poucos países dispõem de condições naturais tão favoráveis à atividade portuária como Portugal. A consolidação da infraestrutura logística com ligação ao transporte ferroviário e rodoviário é fundamental para desenvolver a sua competitividade externa.
A maior parte das grandes cidades localiza-se junto ao mar ou grandes rios. Curiosamente, já acontecia assim nas antigas civilizações, em períodos de grandes trocas comerciais na bacia mediterrânica, como é ilustrado num estudo da Universidade de Yale sobre a emergência das grandes cidades. Cartago, Alexandria ou Troia eram cidades marítimas. A expansão do comércio internacional desencadeada pelas descobertas dos séculos XV e XVI consolidou essa tendência e levou à deslocação massiva das populações para as regiões litorais.

O comércio marítimo tornou-se muito mais eficiente do que o comércio por via terrestre, sendo potenciado pelos sucessivos desenvolvimentos tecnológicos em que o contentor, de tamanho normalizado, desempenha um papel decisivo. Economias de escala ao nível da navegação levaram à construção de cargueiros cada vez maiores. A limitação física colocada pelo Canal do Panamá sofreu uma nova eliminação com o recente alargamento, inaugurado em 26 de junho, e que permite a circulação de navios com capacidade para 13.000 TEUS, em vez do limite anterior de 4.500 TEUS. Este alargamento é relevante para Portugal dado que o porto de Sines é um dos raros portos europeus de águas suficientemente profundas para receber navios de grande calado.

No entanto, é importante estar atento às tendências tecnológicas e comerciais que condicionarão a atividade portuária no futuro. A resistência à globalização ilustrada pela vitória do Brexit, o desenvolvimento de tecnologias mais flexíveis como a impressão em 3D e a preocupação com a redução de emissões associadas ao transporte favorecem o nearshoring com produção mais próxima do local de consumo. O comércio internacional está já a sofrer uma desaceleração, com impacto negativo na criação de riqueza.

Ao nível tecnológico, a automação dos portos está a atingir um novo estádio. O Economist de 15 de março descreve a recente expansão do porto de Roterdão que aumentou em 20 km² o território holandês. A caraterística mais marcante desta nova zona do porto é a ausência de pessoas no seu interior - os pórticos são operados por controlo remoto e o transporte dos contentores é feito por veículos elétricos (AGV, automated guided vehicles) em que até a substituição das baterias dispensa intervenção humana.

Embora grande parte do comércio mundial ainda seja relativo ao transporte de produtos fósseis e seus derivados - carvão, petróleo, gás natural ou gasóleo e gasolina - a emergência dos veículos elétricos, que até o porto de Roterdão adotou, deverá determinar a redução progressiva do seu peso relativo. O transporte de eletricidade que necessita de aumentar para satisfazer as variações horárias do consumo e produção não se faz através dos portos. No entanto, a economia mundial deverá continuar a aumentar os seus níveis de especialização e a necessitar do transporte de produtos agrícolas e industriais. A importância dos portos não diminuirá - mas a competição global exige que se adaptem e tornem mais eficientes.

Poucos países dispõem de condições naturais tão favoráveis à atividade portuária como Portugal. A consolidação da infraestrutura logística com ligação ao transporte ferroviário e rodoviário é fundamental para desenvolver a sua competitividade externa. Se investirmos no desenvolvimento de tecnologias de comunicação e gestão portuária, em sintonia com o cluster da economia do mar - energia, pescas, recursos minerais e turismo -, os portos portugueses poderão voltar a ser polos de crescimento para a economia portuguesa.

Diretor da ISCTE Business School


José Paulo Esperança in Jornal de Negócios (11-07-2016)

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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